De repente eu me vi sendo um homem. Era uma
experiência tão fora da realidade pra mim. Eu sempre fui romântica demais,
sensível demais, humilhada demais. Sempre fiz de tudo por quem nada fazia por
mim. Sempre ali, disposta, ingênua, na esperança de que um dia realmente aquele
beijo de fim de festa se tornaria o melhor amor do mundo. E de repente virou,
mas eu estava recusando. E de repente me vi dando uma desculpa qualquer só pra
beber no bar da esquina com as amigas. Poxa, eu mereço, semana inteira tão estressante.
Por que eu não posso tomar uma gelada? Que problema há nisso, meu Deus? E de
repente me veio na cabeça que namorar é um saco, que dar satisfação é outro
saco, e que ter que ficar sábado a noite falando amorzinho, docinho, bebê, meu
amor, é um saco maior ainda. Não queria nada daquilo. Pela primeira vez na
minha vida estava achando o jogo de futebol mais interessante do que dormir de
conchinha. Sim, eu estava realmente sendo invadida por um sentimento masculino
que nunca tinha experimentado: a experiência de querer ter, mas não querer
sempre. E achava ridículo aquelas crises de "eu te liguei 17 vezes,
custava atender?". Claro que custava porra, eu estava num papo super cabeça
com as minhas parceiras e não ia parar na metade pra falar que também estava com
saudade do seu cheirinho, amor. E me irritava esse ciúme exagerado, de que vou
fazer bico e não vou te beijar por cinco segundos porque o patife de um ser
humano que não tinha nada melhor pra fazer, disse que eu era linda. Se ele
disse o problema era dele, a beleza quem via era ele, vá se entender com ele e
não me assuste mais. Não me assuste com mensagens de bom dia, porque eu odeio
acordar cedo. Não diga que eu sou muito especial pra você, porque ser especial
na vida de alguém é um problema de uns tempos pra cá. Não me diga que quer ter
um relacionamento sério comigo, porque essa palavra me assusta mais do que
espantalho em plantação de tomate. Não queira entrar na minha vida, eu não te
quero, eu não te quero assim. Eu queria você por um dia, uma semana talvez, e
você com esse jeito seu de ir se achegando do meu lado, eu fico sem reação. Não
consigo te dizer que vá embora, porque a carne é fraca, você sabe como é, um
beijinho aqui outro ali não faz mal a ninguém. E de verdade, eu não quero te
fazer mal. O problema não é você, sou eu, e esse meu jeito de dar desculpas
esfarrapadas feito homem. O problema é que você é tudo que eu sempre quis, mas
agora dei pra não querer. Agora resolvi curtir minha vida, eu sou jovem, tenho
muita vida pela frente, e não quero me prender em um relacionamento. Entende? “Não,
não chora, não faz bico. Não, desculpa. Olha, eu não vou embora tá? Não, não precisa
dizer que vai se matar. Não, calma, calma... Eu to aqui, eu não vou sair do seu
lado. Deleta tudo, pensando bem, você também é muito especial pra mim, eu
odiaria te perder!” E assim, sem querer querendo, não disse não nem disse sim.
E iludi mais uma vez por dó, falta de coragem ou por amor – que eu sei que existe, mas custo aceitar. Sempre critiquei os seres de Marte, mas, de um jeito estranho, agora
eu sei porquê os homens preferem a solidão. Como é difícil namorar um homem
delicadamente feminino. Como é difícil ser o macho da relação.
domingo, 12 de agosto de 2012
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Uma noite vermelha
- Alô, quem tá falando?
- Quer falar com quem?
- Na minha época você era mais simpática, mocinha. Não
lembra de mim?
- Dá pra falar quem é?
- Nossa Juju, não faz assim não. Fiquei mais de uma hora
para descobrir seu número novo e você me trata desse jeito? Sei que já faz
tempo, mas deu vontade de saber como você estava..
Desliguei o telefone. A única pessoa que poderia chamar uma
menina completamente destrambelhada, que dava três passos e conseguia tropeçar
em dois, que aprendeu a cruzar as pernas como mocinha bem tarde, que preferia o
all star surrado à sandália de salto, que se escondia atrás das pintas
sardentas, enfim, a única pessoa que poderia chamar alguém nada meiga de
"Juju" era ele. Não tinha dúvidas, era ele. Nunca fui boa em
matemática, mas pelas minhas contas fazia mais ou menos quatro anos que não
escutava aquela voz. Quatro anos para esquecer um namoro de um pouco mais de
oito meses, e assim como não consegui ir em frente com as aulas de piano, é
obvio que não consegui esquecer.
Eu tinha acabado de conseguir uma vaga como estagiária em um
escritório de publicidade, fazia dezenove anos na semana seguinte, tinha um
namorado perfeito que me amava como uma princesa por mais que eu me visse como
o patinho ruivo e feio, estava planejando uma viagem de um ano de namoro que em
partes, comemorava as raízes do nosso amor, por outro lado, comemorava com
espanto que mesmo depois de eu ter contato para ele que eu tinha síndrome do
pânico e desejos noturnos estranhos como cereja azul e cerveja duff, mesmo
assim, ele não me abandonou. Ele era um cara corajoso e eu, uma esquisita de
sorte. Estava tudo maravilhoso. Naquela paz que se sonha em ter aos dezenove.
Um dinheirinho na carteira, um amor na cama, uma liberdade surgindo, uma vida
começando.
Sai do escritório às seis com ar de quem é responsável, até
que me sentia bonitinha e confortável de sapatilha. Subi no ônibus, reparei que
minhas espinhas estavam diminuindo de tamanho. Desci do ônibus, um moço me
olhou, podia ser que eu estivesse virando mulher. Entrei no prédio dele, me
sentia amada. Cheguei, esperava um beijo enorme. Me assustei. A postura séria,
o olhar fugindo de mim, as pernas inquietas no sofá, boa coisa não era. Sentei,
não disse nada. Ele ficou em silêncio por mais de dez minutos, respirando fundo
para falar e desistindo logo em seguida. Quando já estava entretida contando
quantas listras tinha na colcha do sofá, ele soltou em disparada, assim, sem
vírgulas e nem pausas: "vou fazer
um intercâmbio de um ano na Itália vou estudar e trabalhar está tudo certo já
faz seis meses e não tinha coragem pra te contar tentei desistir meu pai não
deixou", só parou quando, por fim, me disse: "desculpa, não sei como
a gente fica, vamos ficar mais tempo separados do que já ficamos juntos".
Já era uma despedida. Derramei quatro lágrimas, levantei, abri a porta. Ele
disse: "Espera!". Eu disse: "Um ano? Acho que não vai dar".
Chorei e morri por dias. Não sei se pela tristeza de ter
chegado ao fim ou pelo desespero de ninguém me procurar. Quatro horas, quinze
dias, um mês se passou. Nenhum telefonema, nenhuma mensagem. Nenhuma
visualização recente no até então famoso orkut. Nada. Não comia mais de tristeza,
comecei a ter tonturas. Fui comer um cachorro quente, não me caiu bem. Tive
desejo de jaca. Estranhei. Aonde foram parar as cerejas azuis? Fim do mês, nem
sinal de azul, nem vermelho. Enjôos. Não sabia como contar a meus pais. Eu
estava grávida de um namorado metido a italiano? Eu estava grávida de um
ex-namorado que eu não sabia mais onde estava, onde morava, o que andava
fazendo da vida? Eu estava grávida de alguém que terminou comigo antes de saber
que iria ser pai? Eu estava grávida, simples, sem complemento nem companhia,
assim, sozinha. Numa cidade cinza, num apartamento pequeno e sujo, sem saber o
que fazer. Eu teria que voltar pra minha cidade nos finais se semana, a barriga
não apareceria logo, mas e depois? Desespero. Médica. Exame de sangue. Mais
enjôos. Silêncio. Mentira. Não posso voltar esse fim de semana, é, muito
trabalho, desculpe. Mais médica. Mais um final de semana sozinha. Ódio, não sei
do que, não me pergunte. Da minha vida que estava uma droga, de uma vida nova
que eu não queria ou da vida amarga que o levou para longe? Não sei. Ódio.
Sábado a noite, não existia mais balada, o filme acabou, fui
levantar do sofá. Dor, dor, dor. Sangue. Desespero. Ligar pra médica. Como
assim ela está de férias? O que eu faço agora? Pronto socorro? Táxi. Velho
babaca preocupado com a mancha de sangue no acento do carro e não com a moça
ensanguentada. Três meses e meio de gestação. Em menos de três horas, a
notícia: aborto espontâneo. Tristeza. Quem disse que eu não queria esse bebê?
Eu queria sim. Raiva. Dor. Choro. Angústia. Não posso ligar pra ninguém.
"Como assim você teve um aborto? Nem sabia que você estava grávida, minha
filha". Sofrer sozinha. Me reconstruir, aos trancos. Dor, a lembrança, o
pesadelo daquela noite vermelha. Não conseguia esquecer.
Passei por tudo isso, completamente sozinha. Em menos de
cinco meses tudo aconteceu: eu era imensamente feliz, perdi um amor, ganhei um
bebê, perdi um bebê, perdi o rumo, perdi o riso. Envelheci cinco anos em cinco
meses. Olheiras. Expressão triste. Nunca mais ser feliz como antes. A cada riso
que sem querer soltava eu imaginava como seria o riso do meu bebê. A cada
criança que via brincando na rua, um balde de choro. Com quantos anos ela
estaria? Com quem ela iria se parecer? Como posso sorrir, se minha felicidade
foi embora antes mesmo de eu a ter conhecido? Arrependimento. Aprender a
conviver com isso. Sobreviver apenas, viver, assim: leve e tranquila? Nunca
mais.
Quatro anos depois, o telefone toca. Na mesma hora, o mundo
acaba. Atender e falar "oi, quanto tempo, como você está? Quase fui mãe de
um filho seu enquanto você estava se divertindo entre uma macarronada e
outra." ou então "não sei se sofri mais por te perder ou por perder a
família que quase tivemos."? Preferi desligar. Não deu certo trocar de
número. Trocar o cabelo, trocar de casa, de emprego, de cidade. Não adiantou.
Troquei tudo. Tentei me recompor, me refazer, me reciclar. Não deu certo. O
pesadelo ainda vivia em mim. E então, depois de quatro anos, o telefone toca.
Entre mágoas e soluços, pensei em ligar de volta e despejar toda essa lama na
cara dele. Seria culpa dele? Dúvida. Incerteza. A visão da carinha dela. Seria
uma menina, eu sei. Ela brincaria na barba dele. Seria bonitinha, mesmo que
fosse ruiva como eu. Tristeza. A culpa da vida que poderia ter sido e não foi é
de quem? Não sei. Assim como também não sabia quem culpar e por não aguentar
carregar tudo isso sozinha, ele foi o premiado. Ganhou o prêmio de se ausentar
da dor. Ganhou o prêmio da ignorância. Muitas vezes o "não saber" é
um presente. Ele deve estar perdido entre perguntas sem respostas. Quantas
vezes a gente tenta entender a vida e não consegue? Sorte a dele. Por ser tão
sortudo, eu o acuso. Por causa dele toda essa dor aconteceu. Ele não sabe, mas
seríamos felizes, nós três. Mas nunca mais poderemos ser três. Então, desliguei
o telefone. Ele nunca entenderá. Melhor assim. Daria tudo para estar no lugar
dele e não ter que lembrar todo dia da maldade da vida: te leva aonde você não
espera, te transforma no que você não imagina e te faz sentir o que você não
queria. Escorreu entre lágrimas e sangue a alegria de Juju.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Pega ladrão
Carro de som, quando não anuncia desgraça, anuncia pamonha. Mas hoje fui levantar da cama e meus ouvidos foram invadidos com aquela voz de quem anuncia que o circo chegou na cidade, dizendo "Não percam, nessa terça-feira, Palestra: como reconhecer um meliante. Técnicas de defesa e fuga! Venham todos, participem". Primeiro eu ri. Depois fiquei pensando seriamente em ir nessa balada aí. Seria muito bom se de cara pudéssemos reconhecer todas as pessoas com potencial a criminoso em nossas vidas. Aquele ali é 171, vou prender ele por estelionato, culpado por obter para si vantagem ilícita (ou seja, foder com a gente e não estar nem aí) em prejuízo alheio (preciso explicar?) induzindo ou mantendo alguém em erro (pois é..) mediante meio fraudulento (chantagem emocional? acomodação sexual? olhos verdes? vai saber..). Aquele outro ali é 157, roubou meu coração com um sorriso. Aquele outro, estuprou meu orgulho. Um conseguiu atirar no meu raciocínio lógico, outro bateu com tudo no carro da minha alegria, me machucou, não prestou socorro e fugiu. Teve também os que traficaram meu juízo, fizeram ele virar pó, me fizeram alucinar e cometer loucuras sem saber o que eu estava fazendo. Por eles, já matei a esperança de ser feliz, já assaltei a confiança dos meus pais, já roubei muitas vezes meu próprio sorriso, já me afundei no erro. Já tive vários tipos de meliante, vários. O foda desses caras é que a função dos desgraçados é, no começo, nunca parecer um meliante. E aí você se joga no mundo deles, vende todo seu luxo pra ficar com aquela simplicidade, esmaga todos seus sonhos pra sonhar junto com uma pessoa, rasga todos os bilhetes de felicidade premiada com um playboy pra ficar, sim, pra ficar a vida toda com um meliante. E depois se pergunta: pra que tudo isso? por que eu fiz tanto? O que eu ganhei em troca? Nada. Melhor ainda, ganhei muito. Ganhei muito pé na bunda, ganhei muita ladainha de amiga chata falando "mude de rumo, esqueça ele, procure outro, vê se enxerga!", ganhei enxaquecas nervosas, ganhei uma caixa d'água de choros, ganhei sogras chatas, ganhei o ódio de umas 78 piranhas, ganhei experiência. Essa última aí foi a que me salvou. A tal da experiência. Depois de ver tanto crime em volta de mim você aprende alguma coisa com a vida. Com ela, eu vi que não adianta bancar a xerifa e querer prender todo mundo na prisão do amor. Meliantes fogem. Meliantes armam um jeito de escapar e não tem algema que dê conta. Não gostam de viver preso, não gostam de honrar fidelidade a nada e nem a ninguém, não gostam de fazer ninguém feliz, só conseguem alimentar o próprio ego e ver envolta do próprio umbigo. E só. E o fim da história sou sempre eu anunciando em todos os postes da cidade "Procura-se por meliante. Recompensa: meu sorriso de volta". Mas não tem que ser sempre assim. Resolvi que pedi demissão da delegacia. Se lugar de bandido é na cadeia, eu que não vou ficar aqui pra alimentar essa amargura. Não tenho estômago pra continuar mais nessa vida, meu sapato de salto fino enrosca se eu andar apé, minha maquiagem borra se eu tomar chuva, e não dá pra usar cinta liga em visitas íntimas. Não tem jeito, sou muito chique pra ser rainha da favela. Não tenho cara pra usar corrente de ouro presa no pescoço. Prefiro meus diamantes. Soltos, livres e bonitos. Porque realmente acredito agora que deva ser assim. Cansei de tentar prender todo mundo. Não preciso de técnica de defesa, preciso de alguém que me defende. Não quero saber como fugir, preciso que alguém fuja de tudo e encontre em mim a sua paz. Não preciso de garras, eu preciso de liberdade. Preciso de novos ares, preciso sair desse mofo que é a prisão e ver que lá fora céu tá limpo e o sol tá brilhando. Preciso olhar pra padaria, pra farmácia, pra igreja, pra toda a cidade, não preciso só ficar com o cinza que é a delegacia. Não sei aonde estará meu diamante. Não sei que cara tem a felicidade. Não sei por onde começar a limpeza dessas tantas cicatrizes que venho acumulando como colecionadora de desgraças. Não sei. Sei que pedi demissão desse cargo de sofrer. Sei que vou embora agora e não vou olhar pra trás. Sei que é cem vezes melhor ter alguém pra fugir de tudo do que precisar fugir de tudo pra ficar com alguém. Papel de xerifa, mandona, delegada, agende carcerária não me cabe mais. Nunca sonhei com isso, mas ando afim de cerquinhas brancas, dois filhinhos, sainha rodada, blusa de florzinha e vida de menininha. Parece chato, mas depois de tanto bang bang, uma paz é sempre bem-vinda.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Alegriofobia
Alegriofobia. Inventei uma nova categoria
daqueles medos absurdos que a gente vê por aí sabe: gente que tem medo de
nuvem, de palhaço, pavor de sabão em pó, sei lá. Eu estava morrendo de medo ser
feliz. Eu estava tão contente, tão alegre, tão completa, que estava começando a
ter pavor de toda felicidade que transbordava em mim. E se tudo for uma
mentira? E se não for nada disso? E se acabar? Eu era acostumada com a dor, com
o incomodo de nada dar certo, com a certeza de que tudo era ilusão, sujeira e
mentira. Eu lido bem com enganos, decepções, traições. Mas o amor recíproco me
dava um pânico enorme. Quer dizer que agora chegou o tão sonhado “e foram
felizes para sempre”? Quer dizer que agora eu não precisava mais chorar pro
travesseiro? Quer dizer que dessa vez eu tinha encontrado tudo que eu sempre
quis? Que medo, que medo, que medo! Eu prometi ir com calma, eu prometi não me
envolver. Mas não tem jeito. Quando é pra você se apaixonar por uma pessoa, não
adianta puxar o freio, não adianta ter cautela, não adianta querer ir aos
poucos. Explode tudo dentro da gente. Confunde as certezas, traz inseguranças,
dúvidas, aflições, medos. E aqui estava eu. Completamente apaixonada, e
perdida, e sem saber se abria um sorriso do tamanho do mundo por ter achado o
amor ou se chorava toda desequilibrada por medo de perder esse mesmo amor. O
que eu fazia agora? Pra que lado eu corria? Parecia uma criança assustada no
meio do fogo cruzado. Eu esperei tanto por isso, eu chorei pra Deus, eu pedi
pro anjo, eu implorei pra qualquer força mágica pra que eu fosse imensamente
feliz, pra que eu encontrasse alguém que me fizesse sentir que a vida valia a
pena, alguém que não me cansasse de estar perto, alguém que fosse meu melhor
amigo e meu maior amor, alguém com que eu pudesse cantar com o meu tom mais
desafinado, alguém que eu pudesse brincar e brigar, alguém com que eu pudesse
ser carente, menininha, meiga, mulherão, assanhada, matraca, quietinha, brava,
calma, paciente, irritada, dengosa, charmosa, linda e desarrumada. Tudo. Alguém
que eu pudesse ser eu de verdade sem ter medo do que esse “de verdade” pudesse trazer.
Eu com defeitos, eu com uma família difícil de se conquistar, eu com os meus ciúmes,
eu com meu jeito de criança. Consegui tudo isso. Entendia o significado daquela
frase “agradeça pelo que Deus colocou na sua vida”, e eu agradecia tanto,
tanto, tanto. Não durmo mais um dia sem falar “meu Deus, acho que não merecia
ser feliz assim, obrigada, obrigada, obrigada”. E aí eu tenho vontade de
abraçar ele e não soltar mais, como se fosse aquelas crianças que agarram na
perna da mãe e não deixam ela andar, não deixam ela se mexer. Eu tenho tanto
medo do que poderia acontecer se eu perdesse esse amor que as vezes eu tenho
vontade de mandar ele embora só pra
acabar logo com essa história de ser feliz, e de ter um amor, e viver um sonho.
Porque eu estou vivendo um sonho. E quando será que eu vou acordar? Não acorde,
não acorde. Por favor, viva mais um pouquinho esse sonho lindo, tente imaginar
que vai ser sempre assim, feche os olhos e pense: que eu mereça um pouco mais
dessa paz, que o vento que te trouxe não te leve embora jamais, que minha vida tenha
sido um ensaio de erros pra agora eu acertar, que a tristeza tenha ficado pra
trás, que a felicidade ache um lugar pra criar morada, que minha alma não se
canse de brilhar e que eu não morra de alegria. É isso que eu peço em oração. E
nos dias mais desesperados, aonde o medo me consome o peito, eu peço ainda que
eu aguente firme essa angústia de tudo ser só sonho. Eu peço que Deus me
proteja de mim, e dos meus medos bobos que me fazem andar em círculos, e que
ele me convença de que eu posso sim ser premiada na mega-sena da felicidade. E
o mais importante: que ela possa durar mais que 15 minutos e que olho gordo nem
inveja braba leve ela de mim. Amém.
segunda-feira, 5 de março de 2012
De te pedir pra ficar
Eu só queria te dizer que todas essas minhas atitudes pra te perder, são, na verdade, um medo filha da puta de te perder. E tudo que eu faço de errado, é uma tentativa desesperada em acertar. Acertar com você, acertar pra você, acertar por nós dois. E eu só queria te implorar pra não ir embora, pra ficar, mesmo que eu seja uma idiota destrambelhada que saia fazendo e falando todas essas coisas que já combinamos que não podem ser feitas e faladas. E sim, eu sei que fecho a cara e não consigo fazer pose de paisagem, e que meu rosto parece um letreiro enorme piscando “estou com ciúmes, não gosto do que você está fazendo, não saia do meu lado, não olhe pro lado”. Eu sei que preciso me tratar. Mas só você pode me tratar. Eu me saro se você disser que ficar do meu lado é tudo o que você mais precisa. Eu me saro se você me chamar de linda. Eu me saro quando eu tiver a completa certeza de que eu sou uma parte muito importante na sua vida. Mas eu nunca tenho certeza. E é essa incerteza que me desespera e que faz eu ter pesadelos. E neles você me detesta, e diz com todas as letras que ficar comigo soa como uma piada, e me usa, e me descarta, e me magoa, e me faz chorar. E eu tenho um medo absurdo de chorar por você. Eu tenho um medo absurdo de querer ficar com você. Eu tenho um medo absurdo de amar você. Mas aí, eu te vejo do outro lado da rua, e olho pro meu celular e você não me avisou que estaria do outro lado da rua. Aí eu te odeio. Aí eu pego a minha cara de “o que significa isso?” e vou falar com você e você me mostra que mandou uma mensagem antes mesmo de eu despejar em você quinhentos mil palavrões e aí eu adoro você. E odeio a operadora do celular. E aí eu me pergunto porquê diabos eu dei pra ficar assim, tensa, desesperada, insegura, ciumenta, nervosa, louca, até você rir pra mim, e tudo passar. E aí me peguei pensando que isso poderia ser um aviso: eu estou gostando de você, aí eu lembro que gostar de você está longe de ser uma boa escolha. E aí eu me odeio. E lembro que fazia tempo que não ficava assim, odiando e amando tudo, em questão de segundos. E pensando como seria bom te ter e não te ter na minha vida. E adorando o dia do nosso primeiro beijo e querendo tanto que ele não tivesse existido. E adorando seu cheiro mais querendo ficar longe de você o máximo que eu puder. E não sabendo o que sentir. Mas já sentindo tanto. E eu sinto mesmo, mas eu sinto é muito, e sinto muito por mim. Porque eu sei aonde esse trem desenfreado que é gostar vai parar: de cara no muro. E eu sei que odiaria ter que te deixar por gostar demais de você. Eu odiaria deixar de gostar de mim pra começar a gostar de você, e odiaria desistir de mim pra tentar seguir com você, e odiaria passar por cima de mim pra ficar ao seu lado. Eu odiaria. Mas eu amaria que você quisesse muito ficar aqui, e que merecesse ficar aqui, e achasse a melhor coisa do mundo ficar aqui, e que enfim, não só quisesse, nem achasse, nem merecesse, mas por fim, ficasse, de fato, aqui. Porque aí eu não precisaria matar três leões por dia por você, eu não precisaria arrancar todos os meus cabelos, eu não precisaria chutar a porta, dar murro na parede, muito menos enlouquecer de ciúmes. Eu só precisaria te fazer feliz. E então, eu só queria te pedir que não me abandone, por mais que eu seja essa louca-neurótica-desequilibrada que eu pareço ser. Eu só queria te pedir que tenha paciência com a minha incerteza pra minha certeza poder crescer. Eu só queria que você entendesse meus erros com um sorriso de “ah, coitada, ela só tem medo dessa coisa que é gostar..” e não me julgasse, não me chutasse, não me abandonasse. Eu só queria te pedir que fique, porque ficando, todos esses meus medos vão sumir. Eu prometo. E nós seremos mais que uma tentativa, seremos uma vitória contra o fracasso que eu mesmo cavo contra o nosso amor. E seremos enfim um amor, não um sonho maluco unilateral de uma menina esquisita. Eu só peço paciência. Comigo, com nós, com a minha loucura. Prometo que no final vai dar tudo certo. Prometo que valerá a pena. Como tem valido, quando você me abraça e os medos, e monstros, e dúvidas somem. Como quando eu tenho certeza, que só ando meio perdidamente histérica desse jeito porquê eu sei que você é tudo que eu sempre esperei. E esperei por tanto tempo e não posso perder. Porque de todas as pessoas que eu perdi na vida, se você se perder de mim, de verdade, tenho medo de não me encontrar mais.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Fim sem ensaio
É difícil ver o fim do amor. Quando foi o nosso fim foi fácil. Você disse que era melhor a gente parar de se ver, eu disse que te amar daquele jeito estava ficando insuportável. Mas mesmo com todas aquelas verdades escancaradas não tínhamos chegado ao fim. Ainda escutava o telefone tocar de madrugada e pensava aliviada “ufa, ele não me esqueceu”, mesmo que eu não atendesse. Ainda via teus olhos me seguindo mesmo que você não abrisse um sorriso e pensava “que bom, ele ainda me enxerga”. Ainda via você gritar na minha sacada dizendo que precisava só de mais uma chance, mesmo eu falando que não, não tinha próxima chance. Ainda via você cometendo erros, e fugindo do que era certo, e enfrentando brigas, broncas, sermões, por mim. Ainda sentia que mesmo a quilômetros e meses de distância, você ainda fazia parte do meu mundo. Um pouco afastado, torto, errado, incompleto, mas sempre ali. Ainda te sentia. Não tinha dúvidas. Acabou, mas ainda existia amor. Ontem quando te vi, e quando vi seus olhos desviando do meu rosto, e suas costas de costas pra mim, e seu rosto distante do meu.. Ali, ali eu vi que acabou. Ali eu percebi que meu telefone não tocava mais de madrugada, fazia tempo, e eu nem tinha me dado conta. Percebi que quem sempre fez loucuras no meio da noite pra perder cinco minutos comigo, não perdia mais tempo. E quem sempre perdia o juízo, resolveu achar. E deu pra fazer tudo certo. E não errava mais. E não me procurava mais. E não me amava mais. Foi o fim. Em todos os fins você avisou: estou te deixando. Que fim covarde esse. Você poderia me avisar que nunca mais eu ia ver seu sorriso canalha tentando me convencer de que só mais uma noite, depois de tantas, não ia fazer diferença, e que era ridículo eu te dizer não. Você poderia me dizer que nunca mais eu ia te ver dançando na frente do espelho. Você poderia me dizer que seria a última vez que você iria trançar suas pernas nas minhas esquentando meu pé gelado. Você poderia me dizer que seria a última vez que entraria por aquela porta. Você poderia ter me avisado. Ia doer. Mas ia doer menos do que essa surpresa grega. Onde eu vejo o amor da minha vida passando na outra calçada como se fosse um zé ninguém. Mas ele era meu zé preferido, não era ninguém. Foi como receber uma notícia inesperada, foi como levar um susto, foi como levar um soco no estômago, foi como acordar e ver o mundo real. Aquela pessoa que eu estava vendo não era mais o meu amor. Eu não sabia quem era, eu não conhecia, eu não sabia seus gostos, suas manias, seus medos, teimosias. Eu não sabia quem era. Você, que tanto tempo foi tudo se transformou em nada sem que eu pudesse evitar. Você foi caindo grão em grão da minha mão, e quando vi, não te possuía mais. Você simplesmente se reajeitou, e me rejeitou, e deu um jeito de seguir seu caminho sem avisar que eu também precisaria achar um rumo. Covardia. Eu ainda esperava que um dia ou outro você aparecesse, em qualquer noite que a última coisa que eu estaria esperando fosse você. Eu ainda esperava suas desculpas, seu volta pra mim, seu não consigo viver sem você. Eu ainda esperava. E nessa espera não percebi que o tempo passou. E quando o tempo passa a gente se depara com cada mudança. E na mudança a gente não se reconhece mais. Não reconhece nem mesmo o amor que parecia tão sobrevivente, tão entranhando em tudo que eu achava que eu era. Mas eu não sabia mais quem eu era. E a surpresa maior ainda não foi ver que nosso amor tinha mudado, foi ver que quem tinha mudado tinha sido eu, e por isso, não existia mais amor. Aquele amor não se encaixava mais no que você podia me dar, nem no que eu queria receber. Não tinha mais espaço. Eu era uma desconhecida pra você e você um estranho pra mim. Confuso. Estranho. Triste. Depois de tantos ensaios, o fim.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Pular amarelinha e agir feito mulher
Vamos lá, você sabe que não vai ser fácil. Ninguém te prometeu que seria igual brincar de amarelinha. Aliás, se até na amarelinha você precisa desviar das pedras no caminho, na vida que não iria ser diferente. Vai ser difícil, mas também não vai ser o fim do mundo. Chegamos em 2.012, mas o mundo não acabou. Respira, conta até três. É que nem machucado quando se é criança, dói, mas sempre tem alguém pra dizer que não foi nada. Além do mais, depois que casar sara. Foi assim que ensinaram a gente, né? Então. Eu diria que sara na hora que o desgraçado parar de enrolar, e de assoprar o machucado, e de colocar um esparadrapo como se resolvesse, e enfim, decidir casar logo de uma vez com você. Ah, mas se não casar, de um jeito ou de outro, acaba sarando, boba. Senão sarar te arrumo uns remedinhos: tenho vodka, rivotril, benzedeira, facebook ou celular com crédito. Te dou todos os meios possíveis pra você fazer uma besteira. Fazer besteira é bom nessas horas. Isso tudo aí amargurado, azedo, esmagado tem que sair de algum jeito não tem? Pois então saia, mas saia você de casa, e deixe, lá dentro, trancado as amarguras. Saia, fique tão desnorteada a ponto de não se lembrar quem é. Deixe a dor doer. Vire pro lado, ache o rapaz simpático, diga pra ele que perdeu um amor. Diga que odeia os homens. Durma com ele. Tente se lembrar quem era o moço simpático que deu um de simpático pra no final da noite dar uma. Ria. Cometa de novo essas loucuras sempre que quiser chorar que nem criança. Mas lembre-se: você não é mais uma criança, e chorava só quando era uma menina, agora não. Não mais. Agora você não pode mais agir feito menina. Se quis ser gente grande, agora trate de agir feito mulher. Agora você ignora, dança, bebe, inventa outro amor. Mas não chora mais. Deixa o amor pra depois do Carnaval, quem sabe pras férias de julho. Você ganhou dois convites para aquela balada e não pode perder sua noite revendo fotos de tudo que ficou pra trás. Vá. E quando estiver tocando a música mais brega da noite, te proíbo de pensar “não adianta nada disso, ainda amo ele”. Porque não ama, amor é ilusão de óptica: você o enxerga mas quando pisca ele desaparece. E você não dá bola pra quem pisca e desaparece, não é mesmo? Nem pra quem te chama de gatinha, mina, gostosa. E pior ainda, pra quem nem se esforça e vai de “psiu” mesmo, não é? Então vira a cara pro amor, oferece uma dose de tequila pra ele. Vira o copo. Vira o jogo. Vira a puta. Quando você era a menina, ele escolheu a vadia. Quando você era vadia, você escolheu a vodka. Quando você escolheu a vodka, ele não escolheu você. Mas não importa. Desce mais uma, e duas, e três. Quem sabe na quarta você não se lembre quem é você, e não se lembre da parte de você que está com ele, e não se lembre dele, e acabe a noite feliz.
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