segunda-feira, 30 de abril de 2012

Alegriofobia


  
   Alegriofobia. Inventei uma nova categoria daqueles medos absurdos que a gente vê por aí sabe: gente que tem medo de nuvem, de palhaço, pavor de sabão em pó, sei lá. Eu estava morrendo de medo ser feliz. Eu estava tão contente, tão alegre, tão completa, que estava começando a ter pavor de toda felicidade que transbordava em mim. E se tudo for uma mentira? E se não for nada disso? E se acabar? Eu era acostumada com a dor, com o incomodo de nada dar certo, com a certeza de que tudo era ilusão, sujeira e mentira. Eu lido bem com enganos, decepções, traições. Mas o amor recíproco me dava um pânico enorme. Quer dizer que agora chegou o tão sonhado “e foram felizes para sempre”? Quer dizer que agora eu não precisava mais chorar pro travesseiro? Quer dizer que dessa vez eu tinha encontrado tudo que eu sempre quis? Que medo, que medo, que medo! Eu prometi ir com calma, eu prometi não me envolver. Mas não tem jeito. Quando é pra você se apaixonar por uma pessoa, não adianta puxar o freio, não adianta ter cautela, não adianta querer ir aos poucos. Explode tudo dentro da gente. Confunde as certezas, traz inseguranças, dúvidas, aflições, medos. E aqui estava eu. Completamente apaixonada, e perdida, e sem saber se abria um sorriso do tamanho do mundo por ter achado o amor ou se chorava toda desequilibrada por medo de perder esse mesmo amor. O que eu fazia agora? Pra que lado eu corria? Parecia uma criança assustada no meio do fogo cruzado. Eu esperei tanto por isso, eu chorei pra Deus, eu pedi pro anjo, eu implorei pra qualquer força mágica pra que eu fosse imensamente feliz, pra que eu encontrasse alguém que me fizesse sentir que a vida valia a pena, alguém que não me cansasse de estar perto, alguém que fosse meu melhor amigo e meu maior amor, alguém com que eu pudesse cantar com o meu tom mais desafinado, alguém que eu pudesse brincar e brigar, alguém com que eu pudesse ser carente, menininha, meiga, mulherão, assanhada, matraca, quietinha, brava, calma, paciente, irritada, dengosa, charmosa, linda e desarrumada. Tudo. Alguém que eu pudesse ser eu de verdade sem ter medo do que esse “de verdade” pudesse trazer. Eu com defeitos, eu com uma família difícil de se conquistar, eu com os meus ciúmes, eu com meu jeito de criança. Consegui tudo isso. Entendia o significado daquela frase “agradeça pelo que Deus colocou na sua vida”, e eu agradecia tanto, tanto, tanto. Não durmo mais um dia sem falar “meu Deus, acho que não merecia ser feliz assim, obrigada, obrigada, obrigada”. E aí eu tenho vontade de abraçar ele e não soltar mais, como se fosse aquelas crianças que agarram na perna da mãe e não deixam ela andar, não deixam ela se mexer. Eu tenho tanto medo do que poderia acontecer se eu perdesse esse amor que as vezes eu tenho vontade de  mandar ele embora só pra acabar logo com essa história de ser feliz, e de ter um amor, e viver um sonho. Porque eu estou vivendo um sonho. E quando será que eu vou acordar? Não acorde, não acorde. Por favor, viva mais um pouquinho esse sonho lindo, tente imaginar que vai ser sempre assim, feche os olhos e pense: que eu mereça um pouco mais dessa paz, que o vento que te trouxe não te leve embora jamais, que minha vida tenha sido um ensaio de erros pra agora eu acertar, que a tristeza tenha ficado pra trás, que a felicidade ache um lugar pra criar morada, que minha alma não se canse de brilhar e que eu não morra de alegria. É isso que eu peço em oração. E nos dias mais desesperados, aonde o medo me consome o peito, eu peço ainda que eu aguente firme essa angústia de tudo ser só sonho. Eu peço que Deus me proteja de mim, e dos meus medos bobos que me fazem andar em círculos, e que ele me convença de que eu posso sim ser premiada na mega-sena da felicidade. E o mais importante: que ela possa durar mais que 15 minutos e que olho gordo nem inveja braba leve ela de mim. Amém.

segunda-feira, 5 de março de 2012

De te pedir pra ficar

  
     Eu só queria te dizer que todas essas minhas atitudes pra te perder, são, na verdade, um medo filha da puta de te perder. E tudo que eu faço de errado, é uma tentativa desesperada em acertar. Acertar com você, acertar pra você, acertar por nós dois. E eu só queria te implorar pra não ir embora, pra ficar, mesmo que eu seja uma idiota destrambelhada que saia fazendo e falando todas essas coisas que já combinamos que não podem ser feitas e faladas. E sim, eu sei que fecho a cara e não consigo fazer pose de paisagem, e que meu rosto parece um letreiro enorme piscando “estou com ciúmes, não gosto do que você está fazendo, não saia do meu lado, não olhe pro lado”. Eu sei que preciso me tratar. Mas só você pode me tratar. Eu me saro se você disser que ficar do meu lado é tudo o que você mais precisa. Eu me saro se você me chamar de linda. Eu me saro quando eu tiver a completa certeza de que eu sou uma parte muito importante na sua vida. Mas eu nunca tenho certeza. E é essa incerteza que me desespera e que faz eu ter pesadelos. E neles você me detesta, e diz com todas as letras que ficar comigo soa como uma piada, e me usa, e me descarta, e me magoa, e me faz chorar. E eu tenho um medo absurdo de chorar por você. Eu tenho um medo absurdo de querer ficar com você. Eu tenho um medo absurdo de amar você. Mas aí, eu te vejo do outro lado da rua, e olho pro meu celular e você não me avisou que estaria do outro lado da rua. Aí eu te odeio. Aí eu pego a minha cara de “o que significa isso?” e vou falar com você e você me mostra que mandou uma mensagem antes mesmo de eu despejar em você quinhentos mil palavrões e aí eu adoro você. E odeio a operadora do celular. E aí eu me pergunto porquê diabos eu dei pra ficar assim, tensa, desesperada, insegura, ciumenta, nervosa, louca, até você rir pra mim, e tudo passar. E aí me peguei pensando que isso poderia ser um aviso: eu estou gostando de você, aí eu lembro que gostar de você está longe de ser uma boa escolha. E aí eu me odeio. E lembro que fazia tempo que não ficava assim, odiando e amando tudo, em questão de segundos. E pensando como seria bom te ter e não te ter na minha vida. E adorando o dia do nosso primeiro beijo e querendo tanto que ele não tivesse existido. E adorando seu cheiro mais querendo ficar longe de você o máximo que eu puder. E não sabendo o que sentir. Mas já sentindo tanto. E eu sinto mesmo, mas eu sinto é muito, e sinto muito por mim. Porque eu sei aonde esse trem desenfreado que é gostar vai parar: de cara no muro. E eu sei que odiaria ter que te deixar por gostar demais de você. Eu odiaria deixar de gostar de mim pra começar a gostar de você, e odiaria desistir de mim pra tentar seguir com você, e odiaria passar por cima de mim pra ficar ao seu lado. Eu odiaria. Mas eu amaria que você quisesse muito ficar aqui, e que merecesse ficar aqui, e achasse a melhor coisa do mundo ficar aqui, e que enfim, não só quisesse, nem achasse, nem merecesse, mas por fim, ficasse, de fato, aqui. Porque aí eu não precisaria matar três leões por dia por você, eu não precisaria arrancar todos os meus cabelos, eu não precisaria chutar a porta, dar murro na parede, muito menos enlouquecer de ciúmes. Eu só precisaria te fazer feliz. E então, eu só queria te pedir que não me abandone, por mais que eu seja essa louca-neurótica-desequilibrada que eu pareço ser. Eu só queria te pedir que tenha paciência com a minha incerteza pra minha certeza poder crescer. Eu só queria que você entendesse meus erros com um sorriso de “ah, coitada, ela só tem medo dessa coisa que é gostar..” e não me julgasse, não me chutasse, não me abandonasse. Eu só queria te pedir que fique, porque ficando, todos esses meus medos vão sumir. Eu prometo. E nós seremos mais que uma tentativa, seremos uma vitória contra o fracasso que eu mesmo cavo contra o nosso amor. E seremos enfim um amor, não um sonho maluco unilateral de uma menina esquisita. Eu só peço paciência. Comigo, com nós, com a minha loucura. Prometo que no final vai dar tudo certo. Prometo que valerá a pena. Como tem valido, quando você me abraça e os medos, e monstros, e dúvidas somem. Como quando eu tenho certeza, que só ando meio perdidamente histérica desse jeito porquê eu sei que você é tudo que eu sempre esperei. E esperei por tanto tempo e não posso perder. Porque de todas as pessoas que eu perdi na vida, se você se perder de mim, de verdade, tenho medo de não me encontrar mais.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fim sem ensaio

   
     É difícil ver o fim do amor. Quando foi o nosso fim foi fácil. Você disse que era melhor a gente parar de se ver, eu disse que te amar daquele jeito estava ficando insuportável. Mas mesmo com todas aquelas verdades escancaradas não tínhamos chegado ao fim. Ainda escutava o telefone tocar de madrugada e pensava aliviada “ufa, ele não me esqueceu”, mesmo que eu não atendesse. Ainda via teus olhos me seguindo mesmo que você não abrisse um sorriso e pensava “que bom, ele ainda me enxerga”. Ainda via você gritar na minha sacada dizendo que precisava só de mais uma chance, mesmo eu falando que não, não  tinha próxima chance. Ainda via você cometendo erros, e fugindo do que era certo, e enfrentando brigas, broncas, sermões, por mim. Ainda sentia que mesmo a quilômetros e meses de distância, você ainda fazia parte do meu mundo. Um pouco afastado, torto, errado, incompleto, mas sempre ali. Ainda te sentia. Não tinha dúvidas. Acabou, mas ainda existia amor. Ontem quando te vi, e quando vi seus olhos desviando do meu rosto, e suas costas de costas pra mim, e seu rosto distante do meu.. Ali, ali eu vi que acabou. Ali eu percebi que meu telefone não tocava mais de madrugada, fazia tempo, e eu nem tinha me dado conta. Percebi que quem sempre fez loucuras no meio da noite pra perder cinco minutos comigo, não perdia mais tempo. E quem sempre perdia o juízo, resolveu achar. E deu pra fazer tudo certo. E não errava mais. E não me procurava mais. E não me amava mais. Foi o fim. Em todos os fins você avisou: estou te deixando. Que fim covarde esse. Você poderia me avisar que nunca mais eu ia ver seu sorriso canalha tentando me convencer de que só mais uma noite, depois de tantas, não ia fazer diferença, e que era ridículo eu te dizer não. Você poderia me dizer que nunca mais eu ia te ver dançando na frente do espelho. Você poderia me dizer que seria a última vez que você iria trançar suas pernas nas minhas esquentando meu pé gelado. Você poderia me dizer que seria a última vez que entraria por aquela porta. Você poderia ter me avisado. Ia doer. Mas ia doer menos do que essa surpresa grega. Onde eu vejo o amor da minha vida passando na outra calçada como se fosse um zé ninguém. Mas ele era meu zé preferido, não era ninguém. Foi como receber uma notícia inesperada, foi como levar um susto, foi como levar um soco no estômago, foi como acordar e ver o mundo real. Aquela pessoa que eu estava vendo não era mais o meu amor. Eu não sabia quem era, eu não conhecia, eu não sabia seus gostos, suas manias, seus medos, teimosias. Eu não sabia quem era. Você, que tanto tempo foi tudo se transformou em nada sem que eu pudesse evitar. Você foi caindo grão em grão da minha mão, e quando vi, não te possuía mais. Você simplesmente se reajeitou, e me rejeitou, e deu um jeito de seguir seu caminho sem avisar que eu também precisaria achar um rumo. Covardia. Eu ainda esperava que um dia ou outro você aparecesse, em qualquer noite que a última coisa que eu estaria esperando fosse você. Eu ainda esperava suas desculpas, seu volta pra mim, seu não consigo viver sem você. Eu ainda esperava. E nessa espera não percebi que o tempo passou. E quando o tempo passa a gente se depara com cada mudança. E na mudança a gente não se reconhece mais. Não reconhece nem mesmo o amor que parecia tão sobrevivente, tão entranhando em tudo que eu achava que eu era. Mas eu não sabia mais quem eu era. E a surpresa maior ainda não foi ver que nosso amor tinha mudado, foi ver que quem tinha mudado tinha sido eu, e por isso, não existia mais amor. Aquele amor não se encaixava mais no que você podia me dar, nem no que eu queria receber. Não tinha mais espaço. Eu era uma desconhecida pra você e você um estranho pra mim. Confuso. Estranho. Triste. Depois de tantos ensaios, o fim.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pular amarelinha e agir feito mulher

Vamos lá, você sabe que não vai ser fácil. Ninguém te prometeu que seria igual brincar de amarelinha. Aliás, se até na amarelinha você precisa desviar das pedras no caminho, na vida que não iria ser diferente. Vai ser difícil, mas também não vai ser o fim do mundo. Chegamos em 2.012, mas o mundo não acabou. Respira, conta até três. É que nem machucado quando se é criança, dói, mas sempre tem alguém pra dizer que não foi nada. Além do mais, depois que casar sara. Foi assim que ensinaram a gente, né? Então. Eu diria que sara na hora que o desgraçado parar de enrolar, e de assoprar o machucado, e de colocar um esparadrapo como se resolvesse, e enfim, decidir casar logo de uma vez com você. Ah, mas se não casar, de um jeito ou de outro, acaba sarando, boba. Senão sarar te arrumo uns remedinhos: tenho vodka, rivotril, benzedeira, facebook ou celular com crédito. Te dou todos os meios possíveis pra você fazer uma besteira. Fazer besteira é bom nessas horas. Isso tudo aí amargurado, azedo, esmagado tem que sair de algum jeito não tem? Pois então saia, mas saia você de casa, e deixe, lá dentro, trancado as amarguras. Saia, fique tão desnorteada a ponto de não se lembrar quem é. Deixe a dor doer. Vire pro lado, ache o rapaz simpático, diga pra ele que perdeu um amor. Diga que odeia os homens. Durma com ele. Tente se lembrar quem era o moço simpático que deu um de simpático pra no final da noite dar uma. Ria. Cometa de novo essas loucuras sempre que quiser chorar que nem criança. Mas lembre-se: você não é mais uma criança, e chorava só quando era uma menina, agora não. Não mais. Agora você não pode mais agir feito menina. Se quis ser gente grande, agora trate de agir feito mulher. Agora você ignora, dança, bebe, inventa outro amor. Mas não chora mais. Deixa o amor pra depois do Carnaval, quem sabe pras férias de julho. Você ganhou dois convites para aquela balada e não pode perder sua noite revendo fotos de tudo que ficou pra trás. Vá. E quando estiver tocando a música mais brega da noite, te proíbo de pensar “não adianta nada disso, ainda amo ele”. Porque não ama, amor é ilusão de óptica: você o enxerga mas quando pisca ele desaparece. E você não dá bola pra quem pisca e desaparece, não é mesmo? Nem pra quem te chama de gatinha, mina, gostosa. E pior ainda, pra quem nem se esforça e vai de “psiu” mesmo, não é? Então vira a cara pro amor, oferece uma dose de tequila pra ele. Vira o copo. Vira o jogo. Vira a puta. Quando você era a menina, ele escolheu a vadia. Quando você era vadia, você escolheu a vodka. Quando você escolheu a vodka, ele não escolheu você. Mas não importa. Desce mais uma, e duas, e três. Quem sabe na quarta você não se lembre quem é você, e não se lembre da parte de você que está com ele, e não se lembre dele, e acabe a noite feliz.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Meu sorvete de limão


Nunca soube me entender com a vida muito bem. Sempre, sempre quis muito. Meu maior defeito era querer. Podia ter sorvete de uva, mas eu queria o de limão. E eu chupava uma, duas vezes e via que era amargo, e sabia lá no fundo da alma que era melhor o de uva, mas insistia, só pra não dar o braço a torcer. E chupava sem fazer cara feia, que era pra ninguém desconfiar. E sempre continuei querendo errado. O sorvete, os brinquedos, os amores, as dores, os porres. Sempre escolhendo o pior, sempre, sempre. E a vida falando no meu ouvido "Pelo amor de Deus, me escuta!", e eu nem aí pra vida, só muito aí pra mim, só muito atrás de ser feliz. Sempre assim, nunca soube esperar primavera, verão, outono, inverno. Não, eu corria, atropelava, arrastava tudo. E no verão tudo derretia, e no inverno tudo congelava. E nada dava certo. Não deixava a vida plantar, colher, regar, nascer. Eu queria pra ontem, eu tinha que ser feliz pra já. E correndo atrás da felicidade ela corria pra longe de mim. E querendo muito achar alguma coisa boa eu me perdia de tudo e ficava na merda. E nada, nada nunca dava certo. E de sorvete em sorvete, cresci, virei mulher, continuei correndo atrás do azedo. O azedo que virou homem. Com tantos outros doces, leves, calorosos, eu gostava do menino-limão. Do gosto ruim que era viver no amargo de agüentar o ácido e não ter nenhuma recompensa. E a vida dizia "muda, muda de foco, coloca açúcar, sacode essa sina!", e eu não escutava a vida. E eu tinha quinze anos, e depois dezessete, e depois quase vinte. E ainda continuava com a mesma birra. E se alguém perguntasse "Qual é o seu melhor gosto? Qual é o seu tipo? O que você quer pra vida?", eu respondia que gostava do tipo turrão, com cara de mau, com vida sofrida. Daqueles tipos morenos gostosinhos que enlouquecem metade do quarteirão, te azedam o dia, mas te tiram mil sorrisos, aí você perdoa. Daquela cara de cafajeste mimado assumido. Daquele corpo marronzinho se espalhando no seu cabelo loiro. Mas depois de um tempo você descobre que não adianta fechar os olhos e pensar "meu Deus, como eu queria esse azedume pra mim! Como eu queria te mudar, como eu queria ser sua, como eu queria te mostrar como um troféu e gritar pro mundo que venci, fisguei o morenão!" Mas sabe da maior? Ninguém muda ninguém, todo mundo já vem pronto pra somar, e só. E tentar se somar com outro é se diminuir cada vez mais. E se você achou azedo na primeira mordida não continua, não continua porque no fim da fruta não vai ficar doce do nada. E sua vida não muda do nada. A não ser que você deixe. Porque de repente, assim, de repente, mesmo que você não desconfie, a vida vem e começa a fazer mudanças. E você não entende merda nenhuma. E xinga a vida de ridícula porque do nada, meu Deus, do nada ela muda a rotina, do nada ela tira pessoas que você jamais imaginaria que fosse embora de perto de você, e traz pessoas, que meu Deus, você jamais imaginaria que fosse chegar, se aconchegar, se achegar, ficar, mudar, gostar. E você ainda continua pensando que é passageiro, que é só um gosto doce mais que jajá seu azedinho vai voltar. Mas não volta. E quando volta você tem ânsia, e descobre que se contentou com o horrível muito tempo. E descobre que de tanto você chupar azedo você acaba achando que é de azedo que você precisa. Porque se você comesse merda todo dia você iria achar que precisava de merda pra viver. E se você sonhasse todo dia com um morenão você ia achar que era de um morenão que você precisava pra ser feliz. Mas não, não é assim. Porque um dia vem um gosto bom, um sorriso aberto, uma felicidade limpa. E daí você percebe que a vida sabe muito mais da sua vida do que você. E aí você olha em volta e vê que sonhou a vida inteira com o impossível, fez birra de querer o que não pode, chorou por amar o que não têm. E sofre, e sofre, e sofre. Aí vem a vida e te dá, não o que você queria, mas o que era seu, por direito ou por destino, o que já estava planejado pra ser. E aí você ri, e ri, e ri. E não acredita que tudo, tudo que você desejou um dia, você não tem, e você acha engraçado. Porque sabe que o que você tem é melhor do que tudo que você já desejou. E aí você vê que Deus sabe o que faz. Que a vida sabe o que faz. Que você, você não sabe merda nenhuma. E que precisa parar de desejar tanto pra começar a aceitar o que a vida te dá de bandeja. E descobre que quando a gente insiste demais em uma coisa, e essa coisa não vem, é porque algo muito melhor já está reservado. E depois você enche a boca pra falar que tudo está doce. E aí você pensa, meu Deus, desejei um morenão, errado, azedo, mal-humorado, com problemas de família e me vem um branquelo, certo, doce, com um humor de doer a barriga, com uma família unida.E aí você descobre que o importante não é ter alguém pra te perguntar como foi o dia, mas sim ter alguém que faça seu dia ser feliz. Aí você vê que amar sem limites é papel pra Santa, e que você não precisa ter um amor incondicional pra ser imensamente feliz com um carinho bom. E aí você percebe que amava errado, queria errado, sonhava errado, pensava errado. E aí você muda, sabe que quer muito viver um amor, mas só se for pra ser amada também. Se for pra ser desejada também. Se aceitarem voar junto com você também. Pra que seja doce para os dois. Porque de azedo, já basta todo o resto. E porque gostar de alguém tem que ser doce, senão perde todo o gosto. E no meio dessa plantação de azedo e doce, você se vê feliz. E agradece por nada ser como você sonhou. Por ser melhor. E lê numa traseira de caminhão que a felicidade é incerta. E uma menininha te olha e diz "não tem de limão, pode ser de uva?". E você respira fundo. Aceita o que a vida quer te dar dessa vez. E não, não estou falando de sorvetes..
   

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Rinite de amor alérgico

    Detesto esse povo que me manda esquecer. Tô meio murcha porque minha rinite atacou e lá vem o drama. “Tá triste, né querida? Eu sei, ele te usou, Mas não liga não. Eles são assim mesmo, são todos iguais. Só estão a fim daquilo lá que você sabe né. Você deve estar se sentindo péssima, eu sei, mas vai passar, viu linda?”. É, tô me sentindo péssima, mas é com você despejando mil e umas frases prontas que viu na internet e usa por aí como se distribuísse conselhos excelentes. E não fica assim como? Com esse olho cheio de lágrimas e essa cara de acabada? Eu fico acabada com qualquer poeira. Qualquer filme me faz chorar. Fico acabada com o calor que me deixa mole. E esse povo achando que eu tô sofrendo por homem. Sabe, você sabe, eu odeio poeira. Eu odeio porque poeira me lembra tudo que é velho. E tudo que é velho me lembra ele. Porque ele é velho. Velho na minha vida. E eu não gosto de quem pára na estante do meu coração, junta poeira, atrapalha todo o resto e não serve pra nada. Gosto da casa, da pele, da vida, do coração limpo. Aliás, vivo muito melhor. Depois que descobri que tinha alergia a ele, e que tudo que eu tinha que fazer era limpar esse pó acumulado aqui dentro, ficou tudo mais fácil. Agora não preciso mais de pessoas infelizes me dando conselhos sobre como ser feliz. Agora vou mandar você se ferrar em pensamento e responder que não é nada, é só minha rinite. E me deixa, que eu demoro demais pra sacudir a poeira. Mas quando vou, passo feito furacão, arrasto tudo, não penso mais em sorrisos, em vontades, em passado. Me deixa, que eu tenho meu tempo. Fico anos dando murro em ponta de faca, depois roubo a faca, te rasgo inteiro, e você só percebe quando começa a sangrar. Não dou nem meia volta quando querem que eu dê a volta por cima, mas de repente, o mundo gira, e eu que fui tanto tempo suja, tanto tempo murcha, tanto tempo alérgica, agora vou ser caçadora. Feito aquelas faxineiras que não sossegam enquanto não estiver tudo brilhando. Caçadora, é. Mas sabe do que? Da minha felicidade. Do meu mundo colorido que eu sempre sonhei. Dos dias de sol que respiro bem e sujeira nenhuma afeta minha vida. É só esperar, hoje tô entupida, congestionada, com o peito chiando, com a vida doendo. Amanhã tô pulando, com a vida saltando dos olhos, com a garganta limpa pra poder gritar alto que sou feliz. É, sou feliz. E apesar da minha alergia eu sou alegria. Tá vendo como uma letra faz diferença na vida? É fácil ser feliz. Basta fazer uma faxina de umas ou outras sujeiras que andam por aí com pernas, braços, sorrisos e mentiras.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A pamonha de Piracicaba

    Regras. Relacionamentos são feitos basicamente de regras. Regra número um: não demonstre estar sentindo o que você está sentindo. Regra número dois: aja sempre do modo oposto ao que você queria agir. E a mais importante, regra número três: brinque sempre de gato e rato. Assim você prenderá alguém na sua ratoeira. Certo? Errado, pelo menos pra mim. Sempre odiei regras, nunca deu certo esse jogo de brincar de estar com alguém. E mesmo odiando, sempre fiz as coisas na ordem certa: começo, meio e fim. Mas pela primeira vez tô amando me relacionar com alguém porque não tem jogo, nem regra, nem coisa certa a fazer. Porque a ordem tá completamente invertida, e olha que irônico, invertida e confortável. É a primeira vez que eu sei que tá tudo errado, mas tô achando tudo muito bom. Tudo “não mude uma vírgula”, tudo em paz. Tô em paz comigo, olha que milagre. Toda vez que aparecia alguém parecia que dentro de mim uma escola de samba começava a tocar, e não parava mais, e não me deixava dormir, e não me deixava acalmar. Dessa vez não teve jeito, não teve freio, não tem parada, tá descendo desenfreado num ritmo que eu não consigo acompanhar. Mas olha que legal, pela primeira vez não faço a menor idéia do que pode acontecer amanhã mas mesmo assim não estou arrancando meus cabelos. E tô morrendo de medo de te perder, mas sei que se te perder não vou morrer. Confuso, mas no fundo é simples. Eu disse não, você disse sim. E na hora que era pra passar o telefone errado eu passei o certo. E na hora de se fazer de difícil eu fui sincera. E quando me perguntou do que eu gostava eu não menti, não disse tudo que um homem gostaria de ouvir, eu disse tudo que eu gostaria que um homem aceitasse. E quando me traiu eu falei que senti. Senti pra caralho seu ordinário. Você não podia ter feito isso comigo, mas eu te perdôo. Te perdôo porque é errado perdoar, mas como eu quero perdoar, eu vou mandar o errado se fuder. E quando era pra falar ponto final, eu falei que queria continuação. E quando você falou já que você quer assim eu vou embora e acabou aqui, eu falei não acabou, me beija, não vai embora, fica aqui. E em vez de você sumir assustado comigo, você ficou. Tudo invertido. E discutimos a relação antes de existir qualquer relação. E dormimos de conchinha antes de transar com você. E me vi sendo tão mais sua do que já fui de qualquer outra pessoa. E era pra ser só mais uma noite, mas fui dormir pensando que talvez tivesse sido a melhor. E você disse que não queria nada sério e estamos quase sério. Tudo errado. Tudo sem sentido. Tudo confuso. Mas eu estou entendendo, no meio das minhas frases contraditórias, no meio de um texto confuso que ninguém entende eu estou entendendo. Pela primeira vez eu estou entendendo o que está acontecendo: eu gosto pra caramba de ficar do seu lado e sinto que você gosta também. E pra que se importar com a ordem correta das coisas? Morri de ciúmes antes de te chamar de amor. Você me disse amor quando eu estava tão puta da vida com você que não queria escutar nada. Prometi que era pra ser com calma. Prometemos, não cumprimos. Somos assim mesmo. Já te conheço. E não tenho medo de você me conhecer. E não tenho medo de falar com todas as letras que entre você e todos os outros, eu escolheria você hoje. E conto minhas piadas sem graças sem medo de você me achar sem graça. E dou risada quando tenho que ser séria. E sou séria no meio de uma brincadeira. E aí brigamos, e fico cinco minutos sem falar com você, depois você me dá uma cotovelada, me chama de chata, eu tento não rir, mas já estou rindo. E não controlo minhas palavras porque você vai escutar o que eu quiser dizer, e se você não gostar, que vá embora. E te mandar embora é a última coisa que eu quero, mas se tiver que ser assim dessa vez vai ser porque até orgulhosa eu ando sendo, e ando gostando de mim primeiro e gostando de você depois. E ando feliz. E ando morrendo de medo de você não me dar bom dia no dia seguinte, de você sumir, de você não me dizer o que eu quero ouvir. Mas você diz exatamente o que eu quero ouvir e eu ganho o dia. E você diz tudo aquilo que eu não queria ouvir e eu tenho vontade de chorar. Mas eu não choro porque as coisas boas estão compensando as ruins. E quando o celular toca de manhã e eu fico brava porque você me acordou, e você começa a brincar com voz de narrador de comercial oferecendo pamonhas de Piracicaba eu sei, de um jeito estranho, que isso foi tudo que eu pedi a Deus. E ando confusa porque não sei mais o que esperar de você, mas o que anda acontecendo é sempre melhor que o esperado. E ando fazendo tudo errado pra ver se dessa vez dá tudo certo, já que todas as vezes fiz tudo certo e deu tudo errado. E quer saber? Obrigada. Obrigada porque é a primeira vez que eu sei que se tudo acabar, que se tudo der errado, mesmo assim, vou morrer de saudade, só que dessa vez, de uma coisa boa.