sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Meu sorvete de limão


Nunca soube me entender com a vida muito bem. Sempre, sempre quis muito. Meu maior defeito era querer. Podia ter sorvete de uva, mas eu queria o de limão. E eu chupava uma, duas vezes e via que era amargo, e sabia lá no fundo da alma que era melhor o de uva, mas insistia, só pra não dar o braço a torcer. E chupava sem fazer cara feia, que era pra ninguém desconfiar. E sempre continuei querendo errado. O sorvete, os brinquedos, os amores, as dores, os porres. Sempre escolhendo o pior, sempre, sempre. E a vida falando no meu ouvido "Pelo amor de Deus, me escuta!", e eu nem aí pra vida, só muito aí pra mim, só muito atrás de ser feliz. Sempre assim, nunca soube esperar primavera, verão, outono, inverno. Não, eu corria, atropelava, arrastava tudo. E no verão tudo derretia, e no inverno tudo congelava. E nada dava certo. Não deixava a vida plantar, colher, regar, nascer. Eu queria pra ontem, eu tinha que ser feliz pra já. E correndo atrás da felicidade ela corria pra longe de mim. E querendo muito achar alguma coisa boa eu me perdia de tudo e ficava na merda. E nada, nada nunca dava certo. E de sorvete em sorvete, cresci, virei mulher, continuei correndo atrás do azedo. O azedo que virou homem. Com tantos outros doces, leves, calorosos, eu gostava do menino-limão. Do gosto ruim que era viver no amargo de agüentar o ácido e não ter nenhuma recompensa. E a vida dizia "muda, muda de foco, coloca açúcar, sacode essa sina!", e eu não escutava a vida. E eu tinha quinze anos, e depois dezessete, e depois quase vinte. E ainda continuava com a mesma birra. E se alguém perguntasse "Qual é o seu melhor gosto? Qual é o seu tipo? O que você quer pra vida?", eu respondia que gostava do tipo turrão, com cara de mau, com vida sofrida. Daqueles tipos morenos gostosinhos que enlouquecem metade do quarteirão, te azedam o dia, mas te tiram mil sorrisos, aí você perdoa. Daquela cara de cafajeste mimado assumido. Daquele corpo marronzinho se espalhando no seu cabelo loiro. Mas depois de um tempo você descobre que não adianta fechar os olhos e pensar "meu Deus, como eu queria esse azedume pra mim! Como eu queria te mudar, como eu queria ser sua, como eu queria te mostrar como um troféu e gritar pro mundo que venci, fisguei o morenão!" Mas sabe da maior? Ninguém muda ninguém, todo mundo já vem pronto pra somar, e só. E tentar se somar com outro é se diminuir cada vez mais. E se você achou azedo na primeira mordida não continua, não continua porque no fim da fruta não vai ficar doce do nada. E sua vida não muda do nada. A não ser que você deixe. Porque de repente, assim, de repente, mesmo que você não desconfie, a vida vem e começa a fazer mudanças. E você não entende merda nenhuma. E xinga a vida de ridícula porque do nada, meu Deus, do nada ela muda a rotina, do nada ela tira pessoas que você jamais imaginaria que fosse embora de perto de você, e traz pessoas, que meu Deus, você jamais imaginaria que fosse chegar, se aconchegar, se achegar, ficar, mudar, gostar. E você ainda continua pensando que é passageiro, que é só um gosto doce mais que jajá seu azedinho vai voltar. Mas não volta. E quando volta você tem ânsia, e descobre que se contentou com o horrível muito tempo. E descobre que de tanto você chupar azedo você acaba achando que é de azedo que você precisa. Porque se você comesse merda todo dia você iria achar que precisava de merda pra viver. E se você sonhasse todo dia com um morenão você ia achar que era de um morenão que você precisava pra ser feliz. Mas não, não é assim. Porque um dia vem um gosto bom, um sorriso aberto, uma felicidade limpa. E daí você percebe que a vida sabe muito mais da sua vida do que você. E aí você olha em volta e vê que sonhou a vida inteira com o impossível, fez birra de querer o que não pode, chorou por amar o que não têm. E sofre, e sofre, e sofre. Aí vem a vida e te dá, não o que você queria, mas o que era seu, por direito ou por destino, o que já estava planejado pra ser. E aí você ri, e ri, e ri. E não acredita que tudo, tudo que você desejou um dia, você não tem, e você acha engraçado. Porque sabe que o que você tem é melhor do que tudo que você já desejou. E aí você vê que Deus sabe o que faz. Que a vida sabe o que faz. Que você, você não sabe merda nenhuma. E que precisa parar de desejar tanto pra começar a aceitar o que a vida te dá de bandeja. E descobre que quando a gente insiste demais em uma coisa, e essa coisa não vem, é porque algo muito melhor já está reservado. E depois você enche a boca pra falar que tudo está doce. E aí você pensa, meu Deus, desejei um morenão, errado, azedo, mal-humorado, com problemas de família e me vem um branquelo, certo, doce, com um humor de doer a barriga, com uma família unida.E aí você descobre que o importante não é ter alguém pra te perguntar como foi o dia, mas sim ter alguém que faça seu dia ser feliz. Aí você vê que amar sem limites é papel pra Santa, e que você não precisa ter um amor incondicional pra ser imensamente feliz com um carinho bom. E aí você percebe que amava errado, queria errado, sonhava errado, pensava errado. E aí você muda, sabe que quer muito viver um amor, mas só se for pra ser amada também. Se for pra ser desejada também. Se aceitarem voar junto com você também. Pra que seja doce para os dois. Porque de azedo, já basta todo o resto. E porque gostar de alguém tem que ser doce, senão perde todo o gosto. E no meio dessa plantação de azedo e doce, você se vê feliz. E agradece por nada ser como você sonhou. Por ser melhor. E lê numa traseira de caminhão que a felicidade é incerta. E uma menininha te olha e diz "não tem de limão, pode ser de uva?". E você respira fundo. Aceita o que a vida quer te dar dessa vez. E não, não estou falando de sorvetes..
   

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Rinite de amor alérgico

    Detesto esse povo que me manda esquecer. Tô meio murcha porque minha rinite atacou e lá vem o drama. “Tá triste, né querida? Eu sei, ele te usou, Mas não liga não. Eles são assim mesmo, são todos iguais. Só estão a fim daquilo lá que você sabe né. Você deve estar se sentindo péssima, eu sei, mas vai passar, viu linda?”. É, tô me sentindo péssima, mas é com você despejando mil e umas frases prontas que viu na internet e usa por aí como se distribuísse conselhos excelentes. E não fica assim como? Com esse olho cheio de lágrimas e essa cara de acabada? Eu fico acabada com qualquer poeira. Qualquer filme me faz chorar. Fico acabada com o calor que me deixa mole. E esse povo achando que eu tô sofrendo por homem. Sabe, você sabe, eu odeio poeira. Eu odeio porque poeira me lembra tudo que é velho. E tudo que é velho me lembra ele. Porque ele é velho. Velho na minha vida. E eu não gosto de quem pára na estante do meu coração, junta poeira, atrapalha todo o resto e não serve pra nada. Gosto da casa, da pele, da vida, do coração limpo. Aliás, vivo muito melhor. Depois que descobri que tinha alergia a ele, e que tudo que eu tinha que fazer era limpar esse pó acumulado aqui dentro, ficou tudo mais fácil. Agora não preciso mais de pessoas infelizes me dando conselhos sobre como ser feliz. Agora vou mandar você se ferrar em pensamento e responder que não é nada, é só minha rinite. E me deixa, que eu demoro demais pra sacudir a poeira. Mas quando vou, passo feito furacão, arrasto tudo, não penso mais em sorrisos, em vontades, em passado. Me deixa, que eu tenho meu tempo. Fico anos dando murro em ponta de faca, depois roubo a faca, te rasgo inteiro, e você só percebe quando começa a sangrar. Não dou nem meia volta quando querem que eu dê a volta por cima, mas de repente, o mundo gira, e eu que fui tanto tempo suja, tanto tempo murcha, tanto tempo alérgica, agora vou ser caçadora. Feito aquelas faxineiras que não sossegam enquanto não estiver tudo brilhando. Caçadora, é. Mas sabe do que? Da minha felicidade. Do meu mundo colorido que eu sempre sonhei. Dos dias de sol que respiro bem e sujeira nenhuma afeta minha vida. É só esperar, hoje tô entupida, congestionada, com o peito chiando, com a vida doendo. Amanhã tô pulando, com a vida saltando dos olhos, com a garganta limpa pra poder gritar alto que sou feliz. É, sou feliz. E apesar da minha alergia eu sou alegria. Tá vendo como uma letra faz diferença na vida? É fácil ser feliz. Basta fazer uma faxina de umas ou outras sujeiras que andam por aí com pernas, braços, sorrisos e mentiras.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A pamonha de Piracicaba

    Regras. Relacionamentos são feitos basicamente de regras. Regra número um: não demonstre estar sentindo o que você está sentindo. Regra número dois: aja sempre do modo oposto ao que você queria agir. E a mais importante, regra número três: brinque sempre de gato e rato. Assim você prenderá alguém na sua ratoeira. Certo? Errado, pelo menos pra mim. Sempre odiei regras, nunca deu certo esse jogo de brincar de estar com alguém. E mesmo odiando, sempre fiz as coisas na ordem certa: começo, meio e fim. Mas pela primeira vez tô amando me relacionar com alguém porque não tem jogo, nem regra, nem coisa certa a fazer. Porque a ordem tá completamente invertida, e olha que irônico, invertida e confortável. É a primeira vez que eu sei que tá tudo errado, mas tô achando tudo muito bom. Tudo “não mude uma vírgula”, tudo em paz. Tô em paz comigo, olha que milagre. Toda vez que aparecia alguém parecia que dentro de mim uma escola de samba começava a tocar, e não parava mais, e não me deixava dormir, e não me deixava acalmar. Dessa vez não teve jeito, não teve freio, não tem parada, tá descendo desenfreado num ritmo que eu não consigo acompanhar. Mas olha que legal, pela primeira vez não faço a menor idéia do que pode acontecer amanhã mas mesmo assim não estou arrancando meus cabelos. E tô morrendo de medo de te perder, mas sei que se te perder não vou morrer. Confuso, mas no fundo é simples. Eu disse não, você disse sim. E na hora que era pra passar o telefone errado eu passei o certo. E na hora de se fazer de difícil eu fui sincera. E quando me perguntou do que eu gostava eu não menti, não disse tudo que um homem gostaria de ouvir, eu disse tudo que eu gostaria que um homem aceitasse. E quando me traiu eu falei que senti. Senti pra caralho seu ordinário. Você não podia ter feito isso comigo, mas eu te perdôo. Te perdôo porque é errado perdoar, mas como eu quero perdoar, eu vou mandar o errado se fuder. E quando era pra falar ponto final, eu falei que queria continuação. E quando você falou já que você quer assim eu vou embora e acabou aqui, eu falei não acabou, me beija, não vai embora, fica aqui. E em vez de você sumir assustado comigo, você ficou. Tudo invertido. E discutimos a relação antes de existir qualquer relação. E dormimos de conchinha antes de transar com você. E me vi sendo tão mais sua do que já fui de qualquer outra pessoa. E era pra ser só mais uma noite, mas fui dormir pensando que talvez tivesse sido a melhor. E você disse que não queria nada sério e estamos quase sério. Tudo errado. Tudo sem sentido. Tudo confuso. Mas eu estou entendendo, no meio das minhas frases contraditórias, no meio de um texto confuso que ninguém entende eu estou entendendo. Pela primeira vez eu estou entendendo o que está acontecendo: eu gosto pra caramba de ficar do seu lado e sinto que você gosta também. E pra que se importar com a ordem correta das coisas? Morri de ciúmes antes de te chamar de amor. Você me disse amor quando eu estava tão puta da vida com você que não queria escutar nada. Prometi que era pra ser com calma. Prometemos, não cumprimos. Somos assim mesmo. Já te conheço. E não tenho medo de você me conhecer. E não tenho medo de falar com todas as letras que entre você e todos os outros, eu escolheria você hoje. E conto minhas piadas sem graças sem medo de você me achar sem graça. E dou risada quando tenho que ser séria. E sou séria no meio de uma brincadeira. E aí brigamos, e fico cinco minutos sem falar com você, depois você me dá uma cotovelada, me chama de chata, eu tento não rir, mas já estou rindo. E não controlo minhas palavras porque você vai escutar o que eu quiser dizer, e se você não gostar, que vá embora. E te mandar embora é a última coisa que eu quero, mas se tiver que ser assim dessa vez vai ser porque até orgulhosa eu ando sendo, e ando gostando de mim primeiro e gostando de você depois. E ando feliz. E ando morrendo de medo de você não me dar bom dia no dia seguinte, de você sumir, de você não me dizer o que eu quero ouvir. Mas você diz exatamente o que eu quero ouvir e eu ganho o dia. E você diz tudo aquilo que eu não queria ouvir e eu tenho vontade de chorar. Mas eu não choro porque as coisas boas estão compensando as ruins. E quando o celular toca de manhã e eu fico brava porque você me acordou, e você começa a brincar com voz de narrador de comercial oferecendo pamonhas de Piracicaba eu sei, de um jeito estranho, que isso foi tudo que eu pedi a Deus. E ando confusa porque não sei mais o que esperar de você, mas o que anda acontecendo é sempre melhor que o esperado. E ando fazendo tudo errado pra ver se dessa vez dá tudo certo, já que todas as vezes fiz tudo certo e deu tudo errado. E quer saber? Obrigada. Obrigada porque é a primeira vez que eu sei que se tudo acabar, que se tudo der errado, mesmo assim, vou morrer de saudade, só que dessa vez, de uma coisa boa. 

sábado, 24 de dezembro de 2011

Amizade que não atrasa


Tô saindo porque hoje vamos reunir as meninas. Isso é um perigo, e uma raridade. Vai ter amigo secreto pra comemorar nossa amizade, o natal, e mais um ano juntas. Vai ter risadas, patadas em uma, farpas em outra, vai ter abraços, e se eu bem conheço, vai ter uma bela briga. Resolvi pensar num texto pra elas. Tô atrasada. Acho que não vai dar tempo. Mas o texto veio pronto, agora. Fazer o que? Agora vai. Minhas amigas sempre reclamam que não faço textos pra elas. Poderia fazer, afinal são tantos anos, e tantas falhas, e tantas histórias que dariam vários textos, que daria um bom livro. Mas eu sempre escrevi pelas minhas aflições, e pelas coisas que eu queria ter e não tinha, e pelos erros que a vida me trazia. Mas minhas amigas sempre foram meu maior acerto. E nem sempre as pessoas tem amigas. Tem gente que passa uma vida inteira chorando sozinha porque perdeu o namorado, rindo sozinhas das próprias piadas, contando pro travesseiro os segredos mais horríveis. Mas eu tenho amigas. Por mais que as vezes eu desejasse ter um tipo ideal de amigas e mandar todas elas sumirem. Elas são o meu tipo, e me caem muito bem. A pessoa que eu tirei de amigo secreto é mulher, forte, guerreira, tem algumas cicatrizes no coração, tem um sorriso de rainha, um abraço do tamanho do mundo, tem problemas de família, se olha no espelho e não se acha muito bonita, em outros dias ela se acha incrível. Tem dias que ela chora, tem dias que ela morre de ri, tem dias que não suporto olhar na cara dela, em outros não desgrudo do seu colo, e sempre, sempre ela vai estar presente na minha vida. A pessoa que eu tirei no amigo secreto foi quem eu escolhi pra ser minha irmã mais velha, quem me conhece desde pequena, quem se tornou minha parceira, quem é quase minha vizinha, quem compartilha o meu nome, quem tem a melanina que eu tanto amo. E não importa quem eu tenha tirado. O importante mesmo foi a vida ter colocado uma por uma no meu caminho. Dizem por aí que quem escreve é quem não tem nada pra fazer. Eu escrevo. Tenho que fazer mil coisas antes das sete, e são vinte pras sete. Mas elas vão entender o meu atraso. O atraso da hora, o atraso do texto. Porque como dizem por aí, você só ama uma pessoa se consegue amar os defeitos que ela tem. E eu amo o defeito de todas essas pequenas mulheres cheias de erros, mas que acertam um único ponto: na nossa amizade. E não importa que uma é grossa, a outra some, a outra se irrita fácil, a outra irrita os outros, a outra é manhenta demais, mimada demais, esquisita demais. Não importa. Porque isso é gostar: não suportar de toda forma um gesto, uma palavra, uma mania, alguma coisa em alguém, mas não imaginar de forma alguma sua vida sem isso. Sei que o tempo vai passar, e que agora isso tudo parece melação de quem não tem nada pra fazer e sabe usar uma palavra bonita aqui ou ali, mas daqui 20 ou 30 anos só vão sobrar saudades, então, de vez em quando é bom dizer que sem elas eu não conseguiria continuar. É bom dizer que eu não as escolhi, mas eu agradeço muito pela vida ter escolhido. Realmente, ela sempre sabe o que fazer. Espero que ela nos faça mudar, crescer, continuar, mas sempre, lado a lado. E antes que eu seja apedrejada, pára de buzinar, já tô quase pronta, só mais 5 minutinhos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Silêncio

E pode até ser que seja tarde, mas não só aprendi a dizer menos, como aprendi a sentir mais, bem mais, mas continuar com a mesma cara de incompetência. Tão muda que ninguém percebe o que de fato se passa, tão a todo vapor, que não paro de trabalhar um só minuto, e não paro de pensar um só minuto, mas tudo que concluo, é que simplesmente prefiro não dizer nada. Silêncio, por favor. Silêncio, porque o não é difícil e o sim não é permitido. Silêncio, porque é a melhor forma de dizer não. Silêncio. Distância. Ausência. Era tudo o que me restava. E comecei a me acostumar com certas negações da vida: foi embora, nunca mais, acabou, não era amor, engano seu, procure outro. Era o que eu pensava toda vez que via num canto perdido do quarto uma foto sua. Ou quando via seu nome em algum bilhete velho. Ou quando encontrava com algum dos seus amigos. Ou quando sua família insistia em me procurar. Era tudo o que restava. E seja lá qual for o vestígio que me ronde: o beijo, as vozes, o cheiro, tudo, tudo que chega eu invado com o meu pessimismo realista. Não vai mais acontecer. Acostume-se. Acostume-se a sentir para dentro, chorar por dentro, morrer sozinha, viver cheia de vida sem que ninguém saiba o que se passa. Não deixar transparecer. Colocar o orgulho acima do amor. O amor-próprio acima da paixão. O não acima do sim. Eu longe de você. Era assim a partir de agora, e seria assim por longos anos, seria assim daqui para frente. Sempre assim: tão vivo dentro de mim que quase impedia o novo de acontecer, tão morto que não reacendia mais nada, tão intacto que ninguém conseguia modificar, substituir, mudar. Seguia assim: com a certeza de que nunca encontraria uma pessoa como você, nunca mais amaria igual, tão forte, tão irreal. E mesmo sentindo todo esse desperdício de sentimento, sentia ainda mais, que por mais que vivesse na sombra por algum tempo, não deixaria que mais ninguém visse meu cinza. Eu seria luz, sol, vida. Por mais que minha garganta entalasse o berro para sempre. Por mais que meu travesseiro ficasse entanguido todos os dias. Por mais que o peito apertasse. Não ia, nunca mais ia ser triste. Pelo menos para o mundo. Pelo menos pra você. Pelo menos pra quem me enxerga de fora e não vê quem eu sou, eu ia ser tão feliz que vez ou outra eu iria acreditar nessa felicidade. E dia ou outro, de tanto fingir ser feliz, eu ia me ver, enfim, novamente feliz. E de tanto silenciar essa dor, um dia, ela se silenciará, e eu nem vou lembrar que um dia doeu tanto, tanto, tanto assim. Como agora. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O homem da menina


Não era menino, não. Tô cansada desses meninos que não sabem compor nem uma oração subordinada mas nos subordinam às canalhices que eles espalham por aí. Moleques, que ainda precisam da mãe pra apontar o caminho, mas se acham no direito de querer pontuar nossa vida. É preciso saber ser homem sem querer ser. Ser porque se é, porque já se tornou e não porque está descobrindo o seu vigor másculo, e o que fazer com ele, e o que fazer com nós. Homem, daqueles que não te chamam de oi gata, mas você se sente a felina mais poderosa que existe. Homem, daquele que sabe usar as palavras e não se esconde atrás do silêncio, ou até mesmo, da ignorância. Homem, com cheiro de homem, cara de homem, jeito de homem. Olhos, daqueles que escondem mistérios, mas, descaradamente te mostram vontades. Olhos que te despem do juízo, desses que te fazem roxa só de tentar imaginar os pensamentos que existem por trás desse olhar. Mãos, que sabem aonde vão. E sabem parar quando chega o limite, e sabem continuar quando eu digo que pare, mas penso que continue. Versos: soltos, tranqüilos, sem ensaio, sem a intenção de meias verdades nem inteiras mentiras. Versos que encantam por encantar, não por iludir. Chega a causar medo, a achar tudo aquilo um perigo. E por qual motivo não fugir desse alerta vermelho? Hipnose, feitiço, sensação boa de adrenalina, de proibição? Pode ser. Talvez saber que pode até ser perigoso, mas o desejo aqui fala, berra, grita mais alto. O desejo de querer ficar, querer tentar, querer se jogar. Do penhasco, nos seus braços, sem os traços da pureza, sem a demora do amor. Simples porque querer é simples, e posso te querer sem querer saber da sua vida, sem querer seguir seus passos, sem querer pra casar. Sem querer pra ligar no meio da noite pra escutar a voz, mas ligar no meio do dia pra se aventurar. Aventurar no desejo, no beijo, no eixo que se encaixa como quem já se conhecia. Deixar. Deixar a mão que vá, ou que venha. Se deixar sentir, porque tudo será válido. Mas que não sinta amor, pra não ficar do jeito chato que sempre é. Gostava mesmo é da persuasão, do doce controle de querer se entregar, mas não ir, não agora, não ainda. Da certeza que acontecerá. E acontecerá sem joguinhos, sem se precisar dizer “deixa eu passar a noite com você porque te quero pra sempre”, porque eu sei que ele me quer, e eu o quero pelo querer, não pelo sempre. E não há falsas ilusões. Eu quero porque ele sabe ser homem. E ele me quer pra me tornar mulher. Pra deixar com que essa inocência de continuar menina desapareça. Pra me fazer entender que certas pessoas se unem por desejo, e não pelo sonho de serem felizes juntas. O junto é agora. Amanhã talvez, sem promessas, sem culpas, sem mágoas. Sei que é assim porque homens são assim. E quando se conhece um homem, nunca mais se contenta com qualquer menino. E o desejo é sempre mais, é sempre ainda, é sempre quem sabe, é sempre quando der, é sempre não vejo a hora. Não vejo a hora de ser conscientemente coagida em qualquer hora do dia. Não vejo a hora de ser obrigada a não dizer não. Não vejo a hora de valer. Valer a pena e o que mais tiver que valer e acontecer. E que faça valer, pra eu poder ter orgulho da loucura que é o desejo.

sábado, 19 de novembro de 2011

Se o amor existe, se esconde

Percebi hoje que aconteceu de novo. Tô começando achar que tá virando mania sair pela rua olhando pra todos os lados, pensando, analisando, me perguntando "será que é você? será que vai ser você meu novo amor?". Olhei pra um desconhecido hoje, pensei que dessa vez podia ser. Não foi. Mas podia ser ele, não podia? Ou o que estava na sala de espera do dentista comigo, o que me atendeu no telefone quando eu liguei na gráfica, o que tá no terceiro ano da faculdade, aquele que eu encontro no corredor, o que subiu comigo no elevador, o amigo do meu irmão, o amigo do amigo daquele amigo, o padeiro, o pedreiro, quem será? Quem é que vai entrar por aquela porta e alegrar tudo de novo? Eu achava que não gostava do gostar. Gostar faz sofrer, gostar faz ter medo, gostar faz pedir pra ficar, faz ver ir embora, faz querer morrer. Mas gostar é viver. E não gostar, não gostar é o celular não tocar, é o coração não sair pela boca, não ter pra quem ligar no fim do dia pra perguntar se tá tudo bem, o que fez hoje, se tá cansado. Não gostar é não ter de quem ter ciúmes, não ter um abraço quente, uma cama quente, um sorriso quente, uma briga fria. Não gostar é não ter ninguém. Ninguém pra pedir desculpa, ninguém pra bater o pé e dizer que tá certa, ninguém pra chamar de seu, ninguém pra mostrar pro mundo, ninguém pra ser seu mundo. Não gostar é ficar com o vazio, com o nulo, com o nada. Não gostar acaba nessa mania estranha de querer preencher o tempo todo um espaço que doía, mas fazia viver. Eu achava que não gostava do gostar. Mas prefiro gostar, prefiro ver o ciclo de chegar, fazer feliz, ir embora, fazer triste, do que esse espaço que descobri que só se preenche com a presença da ausência, com o grito do silêncio, com o sofrimento de não sofrer, por nada, nem ninguém. Quis tanto não amar, quis tanto ser mulher-independente-segura-de-si-antes-só-do-que-mau-acompanhada e acabei nessa menina romântica com o jeito bobo de achar que vai virar a esquina e de novo encontrar um amor. Paguei a língua. Apaguei os erros. Penei pra esquecer. Me fiz vazia. E agora quero tudo de volta. Mas aonde ele se esconde?  O que ele faz da vida? Como ele é? Vou precisar ser fingida e aparentar não estar procurando nada pra ele aparecer? Ou ele quer mesmo que eu o cace? Amor, cupido, deuses, anjos, pai-de-santo, farmacêutico, terapeuta, seja lá você quem for, me dá uma dica, uma pista, uma chance. Eu quero encontrar, não tá vendo? Eu tô aqui, aberta, inteira, reconstruída. E nada. Agora que acho que consigo amar direito, agora que espero me livrar desses filmes de terror que não dão espaço pra comédias românticas, e dessas dúvidas que não dão espaço pra certezas, e dessa montanha-russa que não me deixar viver a calma da roda-gigante. Agora que tô pronta, cadê essa porra de amor? Que não vem, que não me acha, que não quer sequestrar a minha vida quando eu tô pagando pra entrar no cativeiro. Sei que falar tudo isso dá a impressão de ser uma louca-carente-neurótica-encalhada, mas quem é que nunca sussurrou baixinho "Deus, me dá um amor?". Disse isso outro dia pra alguém, me vieram com o clichê típico de que enquanto você estiver procurando não vai achar ninguém mesmo. É esse o saco da vida, você aprende o ditado desde criança que quem procura, acha. Aí vem o amor e muda tudo. Faz você mudar. Faz você passar de não-curto-namorar pra quero-dormir-abraçadinho. Esse tal de amor é louco. Eu, talvez, mais ainda, na maior das sanidades, assumindo que quero entrar de cabeça nessa loucura. E agora, pra terminar o drama, eu imploro: alguém, pelo amor de Deus, me resgata dessa realidade e me faz viver no sonho? Alguém, qualquer alguém, que não seja qualquer um, que não seja tanto faz, que não seja já-que-não-tem-tu-vai-tu-mesmo. Mas que seja alguém. Que seja um só-quero-você. Que seja o meu bem. Que seja o meu mau. Apareça. Outra vez. E chegue, e invada, e faça renascer a certeza de que gostar é bom, de que gostar faz bem. Alguém, pra não desperdiçar, enfim, mais uma das chances que o amor nos dá e sem querer-querendo, perdemos. E depois choramos.